segunda-feira, 8 de março de 2010

MEMORIAS


O "MULA"


Todos o conhecem por "Mula", este personagem que já passou, e muito , os cinquenta anos de idade. Meio demente, e digo meio, porque a outra metade da sua anormalidade deve-se ao facto de ele gostar de beber, o que o faz andar num estado de permanente embriaguês.

A nomeada advém-lhe de que numa dada altura era frequente vê-lo passar pelas ruas da aldeia, nas suas deslocações casa-campo e vice-versa, tocando uma mula que puxava uma carroça e que ele constantemente incitava: "Abre os olhos mula que a carroça é cega!". Daí o ter-lhe ficado o "apelido". E que ninguem o fizesse zangar porque nao se livraria da ameaça de um tiro dado pela pistola que ele iria buscar a casa

Não havia reunião de rapazes ou garotada que não contasse com presença do "Mula". Boné aos quadrados, sempre na cabeça, e olhar esgaziado devido aos copos no bucho. Ao que parece, a água-ardente era a sua bebida preferida, quer fosse de Inverno quer fosse de Verão.

Um dia, por altura do Natal ou Carnaval, no largo em frente à Capela de Santo António de Vilarandelo onde um bom canhoto de castanho ardia, juntou-se a rapaziada que começou a rebentar bombas de fogo de artifício. A certa altura lembraram-se de meter em cima da bomba, depois de acendida, uma lata vazia, daquelas de conserva de atum ou sardinha, que quando rebentava com um estoiro abafado fazia subir, subir a lata. Faziam-se assim desafios, como que apostas sem nada em jogo, para ver quem era o dono da bomba que faria subir a lata mais alto.

Foi então que algum mais atrevido, sorrateiramente, rapa o boné ao "Mula" e em vez da lata mete aquele em cima duma bomba. Claro está que era só para ver o efeito e criar um pouco mais de ambiente com umas boas risadas.

Dá-se o rebentamento e eis que parte o boné por ali acima rápido como um foguete e girando, girando sempre, como uma ventoinha, sendo o próprio "Mula" aquele que maior contentamento tinha estampado no rosto, até dava pulos de alegria; - afinal o seu boné conseguia ir mais alto do que uma qualquer lata de sardinhas em conserva e como efeito visual não havia sequer comparação.

Quando caiu no chão, corre imediatamente a apanhar o boné, com a clara intenção de voltar a repetir a façanha, só que desta vez seria ele próprio a colocá-lo em cima da bomba.

Surpreza!

Mesmo no centro do boné aparecia agora um buraco com cerca de um centímetro de diâmetro, notando-se ainda o cheiro e chamusco misturado com o de pólvora queimada.

Foi então que aquela alegria estampada no rosto, repentinamente se desvaneceu dando lugar ao mais constrigente choro, próprio duma criança, acompanhado de blasfemias e amaldiçoando todos. E da maldição passava à ameaça, a do costume: "Agora vou a casa, trago uma pistola e dou um tiro a todos." - Repetindo sempre enquanto se afastava. E ia-se embora para não voltar a aparecer naquele dia.

4 comentários:

José Doutel Coroado disse...

Caro José,
deliciosamente bem contadas estas suas memórias.
posso sugerir que pense na hipótese de a enviar para publicação no nosso ARAUTO?
abs

Jose Cancelinha disse...

Caro Jose,
Pois que se publique...ou terei que ser eu a manda-lo para algum endereco especial?
abs

José Doutel Coroado disse...

Caro José,

faz o favor de enviar para o mail do ARAUTO:
arauto2005@gmail.com
grato
abs

Paulo Pascoal disse...

É isso mesmo, uma história digna de se pulblicar no nosso Arauto, parabéns pelo blog!